Terça-feira, Outubro 23, 2007

Cinema Paraíso - Ausência IV

Parece que há lágrimas que não secam nunca. Não sei de onde vêm , tão depressa, ditatoriais, impondo - se quando digo o teu nome, como paga pela veleidade de te enunciar, de te ir enunciando a medo, timidamente, dois anos depois da tua ausência ( teimam em dizer -me que morreste)

Continuo a ver - te na rua
e nos jardins
e nas bibliotecas
e nos poemas
e nos olhos de despedida da avó

Continuo a ouvir - te cantar e o teu riso habita a escada da minha casa
a tua gargalhada, aquela que me devolvia a alegria e resgatava sempre do sítio mais escuro onde estivesse

Ouves - me?

Sinto - te ao meu lado no cinema, Cinema Paraíso, sem trocarmos palavra, a ficha técnica a passar - nos em frente aos olhos, os nossos soluços sem idade, a noção da perda, da saudade que já sentíamos um do outro.

Lembro -me das tuas lágrimas - choravas muito por coisas bonitas, o mundo emocionava - te, ensinaste - me isso, esse arrepio de estarmos vivos e testemunharmos a beleza como um roubo, um assalto permitido, a alegria da desobediência, o imperativo de sermos felizes.

Lembro -me das tuas lágrimas- choravas quando se celebrava o amor, pleno, livre ou censurado, o amor verdadeiro, aquilo que nos move. A paixão insubmissa e todos os seus escudeiros ( e lá vem o Cinema Paraíso outra vez e aquela relíquia sequência final que resume tudo e a música que a abraça que tal como o teu nome, não consigo enunciar, a música que te evoca e me evoca as lágrimas ditatoriais, procuro -te, sou pequenina outra vez, dá -me a mão, vamos passear, éramos tão bons a passear)


Teimam em dizer -me que morreste

Continuo a ver - te na rua.




Rita Ferro Rodrigues