Quinta-feira, Maio 29, 2008

Final Feliz

Antes de mais: o cão já regressou a casa. Final Feliz, portanto.

Muito obrigada a todos aqueles que se preocuparam e que me ajudaram a encontrar o dono. E um beijinho muito especial para as várias pessoas que me contactaram com esperança de que o cão que acolhi, fosse o seu cão desaparecido. Recebi relatos absolutamente comoventes de famílias que não desistem de procurar os seus animais, que não os esquecem e cujo sofrimento pela perda do amigo de quatro patas me emocionou muito. Para esses, os que procuram e não esquecem, as palavras do Poeta:


"Há momentos em que parto não sei para onde. Navegação espiritual. Ou dispersão na terra abstracta, a única que se vê quando não se vê. São as grandes caçadas dentro de mim mesmo, a busca da magia perdida, uma palavra cintilante, uma perdiz imaginária, um sopro, um ritmo, uma espécie de bafo. Como o teu. Às vezes sinto-o, outras não. Mas sei que estás aí, algures, enroscado na minha própria solidão."


Manuel Alegre ( "Cão Como Nós")

Domingo, Maio 25, 2008

Encontrei um Leão da Rodésia

Tenho um Leão da Rodésia em casa desde Sábado de manhã. Um cão lindo, meigo, enorme.
Tentei ignorá -lo, esquecer -me dele. Mas durante três dias seguidos, a vida obrigou -me a passar pela mesma rua, ao pé da Estrela e lá estava ele, com um ar desolado a ensaiar o sono no meio da rua. No meio da rua mesmo, sujeito a ser atropelado. Tratado, com uma coleira bonita, este cão só se pode ter perdido, não acredito que alguém o tenha abandonado.
Parei o carro e aceitei o meu destino. De qualquer forma não ía conseguir dormir , imaginado - o ali deitado no meio da estrada. Abri o porta - bagagens do carro e o cão ( como se me conhecesse da vida inteira) saltou lá para dentro com uma elegância olímpica e adormeceu imediatamente. Lá se foi o meu Sábado. Siga para o veterinário . Pode ser que o cão tenha chip e consigamos encontrar o dono.

E não é que tem ? Só que os cães não se podem perder ao fim -de -semana . A base de dados só está disponível Segunda - feira. Palavras da veterinária carinhosa. Alternativa? Canil Municipal.

O Cão olhou para mim com meiguice e encostou - se às minhas pernas.

Lá fomos embora. Cão, comida, uma trela emprestada e um problema para resolver. Obviamente não vou deixar o bicho no canil. Mas o gato Matias ( dono e senhor da minha casa) não vai achar piada nenhuma a este novo inquilino improvável.

O gato Matias bufou e ficou o dobro do tamanho. O cão ( não sei o nome dele , trato -o por cão para não o baralhar) mostrou os dentinhos. Um eufemismo, tendo em conta a raça.

Resumindo: tenho um Leão da Rodésia lindo e meigo em minha casa a dormir no quarto de hóspedes e um gato Matias a passear - se pelo resto do apartamento . Na primeira noite , dormiram em turnos no meu quarto , pois pelos vistos nem um nem o outro gostam de dormir sozinhos. Uma animação.

Já andei pela net a pesquisar se alguém anda à procura do bicho. Não encontrei nada a não ser testemunhos de outras pessoas que tal como eu viram o bicho abandonado na mesma rua. Tenho esperança que através do google os donos cheguem aqui pesquisando Leão da Rodésia ou ENCONTREI UM LEÃO DA RODÉSIA.

Amanhã isto resolve - se. Acredito que de facto o cão se tenha perdido e não tenha sido abandonado. E que ande uma famíla querida à procura dele.
É que eu também já perdi o cão de família há uns anos e não foi nada agradável. Ninguém pregou olho enquanto o bicho não apareceu e quando finalmente o fomos buscar a casa de alguém que o recolheu com ternura, foi um momento de enorme felicidade. Pode ser que a história se repita, desta vez comigo, do outro lado da narrativa.

ENCONTREI UM LEÃO DA RODÉSIA. Chama - se cão e está à espera que o venham buscar, pois por muitos mimos que lhe dê, guarda um olhar perdido de quem precisa, urgentemente, de
regressar a casa.


ritarodrigues@sic.pt ( para eventual contacto)

Segunda-feira, Maio 05, 2008

Deslumbrada Poeira

Foi o sofrimento que provocou a ausência da escrita. O sofrimento da perda. Da puta da perda que persegue a vida de todos aqueles que teimam em amar e em fazer do amor a única forma de sobrevivência, a única religião, a única certeza.
Perdi a Manelinha. A minha Manelinha de quem não me despedi ( mais uma vez não me despedi)

Tal como o meu avô tinha a capacidade única , de ser única. Um livro aberto de poesia agora disponível no universo.
Lia -me no silêncio, na cumplicidade.
Lia -me sem ser preciso escrever uma palavra.
Lia -me sem ser preciso escrever.
Lia - me sem ser preciso.
Lia - me sem ser.
Lia -me sem .
Lia -me .


Tudo o que escreverei a partir de hoje será sempre, como foi sempre também, para ela.

Exemplo de Mãe, de Mulher,de Avó, de Amiga, de Coragem, De Eterna Beleza.




(O que me fez voltar a querer escrever)
Um telefonema , confidente de alegria vindo da placenta partilhada.
A vida no que tem de mais belo.


Mais um bocadinho de nós, de todos nós, das nossas alegrias, tristezas , vitórias , derrotas, um ímpeto de loucura e de crença no futuro, uma réstea de coragem , da fusão de dois olhares límpidos,


Foi a celebração da vida que me fez escrever.


Como diria o meu avô, o Bom Gigante poeta : " E nós amamos a vida e amamos este Planeta, a Mulher, O Homem, a Natureza e este universo onde somos parte de uma réstea de deslumbrada poeira."


Rita Ferro Rodrigues